Ela me chamou de gato, eu ri.
Perambulei sob o corpo dela com minha língua e ela miava enquanto me puxava pelos cabelos. Me arranhava e me puxava de um lado pro outro enlouquecida. Passei a noite descobrindo quais sinapses faziam com que o bairro inteiro a escutasse.
Abri a porta silenciosamente, ela ronronava toda enrolada sob os lençois suados. Escorreguei pelas ruas e entrei no primeiro bar que encontrei, comprei um maço e uma cerveja pra tirar o gosto da manhã. Pousei minha vista sob as bolhas subindo pelo copo, devo ter ficado um bom tempo assim pois quando me dei conta o sol já castigava as calçadas.
Ao sair do bar me deparei com uma amiga que há muito não via. Caminhamos juntos até o metrô, ela disse que tinha acabado de sair de uma noite insana, onde nada havia dado muito certo, eu ria. Bilhetes, catraca, escada, espera, barulho, trem, vento, sinal e as portas se abrem. Conversamos até chegarmos à estação dela. Ela me deu um beijo e confirmou “Hoje ás oito, não se atrase”.
Contei pra ela sobre a noite anterior, ela gargalhava e olhava envergonhada pra mim como se eu fosse a fileira mais alta de uma banca de revistas, “seu puto mentiroso”, sussurava enquanto apertava minha coxa. Bebados, saimos do bar e entramos em um taxi.
A casa dela tinha cheiro de incenso e mofo de tapete. Ela cheirava á um perfume doce que me contaminava. Antes de me enfiar debaixo das cobertas com ela fui ao banheiro pra mijar e respirar um pouco. Meu celular vibra, uma mensagem: “gato, quero você de novo”. Gatos são bichos um tanto vagabundos, você dá amor, dá carinho, mas não importa o quanto você cuide, ele sempre vai pular o muro, entrar em outras casas, comer desde outros potes de ração até o lixo que encontrar na rua, mas não importa o que aconteça, ele sabe que em casa terá sua comidinha no seu lugar.
Acho que ela nunca saberá o quão certa estava. Ela me chamava de gato, eu ria.
Gustavo Paes
Mais um sol pra criar coragem de mudar o rumo da minha vida, de abrir mão dos meus vícios, de começar uma dieta, de cortar minhas unhas e limpar as orelhas.
Masturbo meu ego com visões do meu futuro pretencioso.
Eu sou o mestre dos planos, sei de tudo que tenho que correr atrás, mas mesmo com as pernas sãs me arrasto com a bunda no chão.
Eu acredito em mim, eu sei o que sou e sei do que sou capaz, milhões de ideias estão jorrando em um universo paralelo dentro da minha cabeça. Só preciso de uma lobotomia.
O sol já se foi. Rasgo a escuridão da noite através dos véus de luz laranja vindos do poste, enquanto escuto músicas que se tornam as trilhas dos meus dramas. Meu filme. Patético.
Boca seca, ar seco, um frio desnecessário, a porra da minha alma voa junto com vento gelado. Sou o protagonista de um filme de baixo orçamento improvisado. Um roteiro em que os pontos de virada nunca chegam.
Amanhã tem mais um sol. Vou criar coragem pra parar de machucar minha orelha limpando-a com as unhas. Mas antes preciso mudar minha vida.
Gustavo Paes
Eu a abraçava intensamente, queria que ela soubesse, apesar do fim, o quanto eu a amava, por isso prometi amá-la pro resto da minha vida, ela sorriu e partiu.
Já tinha planejado tantas coisas, eu imaginava aqueles cabelos morenos esparramados pelo travesseiro, em um quarto de hotel na Hungria, já tinha prometido que mudariamos o mundo juntos, mas o sonho dela era cuidar dos filhos em uma casa de campo perto de Rio Preto. Ela reclamava dos meus planos, eu reclamava da rotina. Onde não há novas cores, novas histórias, o amor é monocromático e sobrevive aos clichês. Ela nunca vai entender isso e eu nunca vou ter paciência pra convencê-la.
Sentado, esperando, sozinho. Há sempre a esperança de encontrar um novo alguém. Marquei de encontrar com uma outra às oito e já são nove e meia, mas talvez valha a pena. Antevejo tudo que eu vou prometer, os sorrisos que vão abrir fendas no meu coração, as musicas que vão me sedar e me fazer esquecer de mim. Só me pergunto o que resta do resto da minha vida que prometi à todas as outras.
Gustavo Paes
Doutor, eu estou enlouquecendo.
Doutor, por que tu não responde?
Doutor, seu nariz está sangrando.
Sua orelha também!
Doutor, está tudo bem com o senhor?
Ei, não me deixe aqui falando sozinho.
Doutor, minha cabeça dói.
Aqueles remédios não funcionam…
O quarto é escuro demais.
Doutor, sua íris desapareceu.
Doutor, é Van Gogh do seu lado?
Ei, eu não paguei para isso.
Vamos, responda!
Dr., cansei.
Gabriel Andreolli.
“O tempo passa. Os livros acabam. Os filmes também. A tristeza se afasta perigosa e as pessoas mudam. Eu permaneço em meu canto, escrevendo e escrevendo e alimentando meus fantasmas com histórias que não consegui viver… Por preguiça, ou por insistir em deslizar o meu drama em alguma alma que se disponha a perder-se na minha.”
Acabou a folha e resolvi respirar fundo. Há dias não saia nada que prestasse. As lembranças pesavam demais para serem escritas, mas eu precisava. Apertei o play e sentei no chão abraçando os joelhos à procura de refúgio. Todos os retratos se calaram e o bordô da parede perdeu o romantismo. O cheiro de mofo do carpete não era mais tão desagradável. No entanto, sua ausência era devastadora e por isso eu escorregava os olhos em todos os cantos do quarto, meio embrutecido pela carência.
Tragava meu passado a cada lapso de memória desprezada de um estranho dois mil e cinco. Tudo comprimia a vontade de encostá-la na parede e dizer: “Meu bem, o que fizeram com você?” Mas, há uma eternidade entre o instante em que se pensa e o que se age. No meu caso, não teria motivos para agir. Meus carmas já haviam sido lapidados e, como a vida é um negócio lindo, certamente alguém viveria o bastante para gravá-los em meu epitáfio.
Chovia dentro do quarto… A janela estava meio aberta. A noite se sentava no lado de fora dando um sorrateiro adeus ao entardecer gelado. Decidi tomar uma ducha quente. Afinal, tinha que viver um pouco e sair da bolha melancólica em que me trancara. Já tinha passado das sete, não saberia dizer quanto tempo fiquei estagnado, mas o disco já havia terminado.
Não encontrava espaço em meio a toda essa baderna mental para esquecer ali um pouco de esperança. E Esperanza era o segundo nome dela. Maldita espanhola que foi parar na minha rua, no meu quarto, no meu sofá, na minha cama, nesse chuveiro, na minha vida. O orgulho sempre foi meu maior defeito, já me disseram. Desenhei com o indicador uma cruz no box embaçado e, felizmente, não tinha como carregá-la nas costas.
Terminei o banho e me vesti. Pus minha melhor jaqueta e desci. O céu ainda não havia dado trégua, então corri até uma marquise para esperar a placidez do tempo. Os carros corriam e as pessoas ao redor pareciam cheias de sentido e aceleravam mais ainda seus passos, cheias de realidade e vida, cheias de planos para o futuro e as luzes dos postes já estavam acesas. Sempre me distraia com isso. Há dias não me sentia no mundo real, não saberia dizer se era pelo fato da minha rotina ter mudado por completo ou, simplesmente, por eu não ter mais uma rotina. A indisciplina me fascinava e esse fascínio me afundava cada vez mais.
Uma vida que poderia ser descrita como um fim do mundo próximo, sem ser dirigida por Lars Von Trier, sem sequer ter um diretor de verdade. Sem arte na dor. A luz verde do semáforo incitava que eu deveria permanecer na calçada por mais alguns segundos, entretanto, fez-me apenas lembrar daqueles olhos, que também eram verdes e mudavam de cor, só que de acordo com a temperatura. Bem, ao menos isso era o que ela dizia. Um sorriso meu foi arrancado.
Atravessei a rua em direção ao café da esquina. Aquele momento em que você se pega rindo da própria cara e em seguida demonstra um pouquinho de compaixão se dando o direito de um espresso. A cafeteria ditava o contexto. Minha cabeça gritava, “cara, para de pensar.”.
- Boa noite. – disse à atendente cansada
- Boa noite, senhor! Um cafezinho?
- Sim, por favor. Bem forte.
A inquietude toma conta e logo o café assume a culpa… Mas, de repente, tenho a sensação de estar no lugar errado, na hora errada e minha visão fica irresoluta, meu nariz começa a sangrar, pingando uma gota de mim naquela mesa surrada de cafeteria falida. Levanto rapidamente e vou até o banheiro. Pego o papel toalha e tento dar um jeito no nariz um tanto quanto preocupado, sem saber o resultado, pois naquele banheiro de merda não havia espelho.
Senti apertarem-me a cintura e fui tomado por aquela fisgada na boca do estômago. Poderia ser um assalto? Não. O toque era sutil demais. Pensei na minha existência passageira enquanto meu hipotálamo mandava a informação para o resto do corpo que aquela voz que acabara de ser soprada era a voz dela.
- Como assim? O que tu tá fazendo aqui? – disparei grosseiramente
surpreso
- Senti teu cheiro e entrei. - respondeu meio fatal. - O que aconteceu no
teu nariz? – disse ela tomando o papel da minha mão, começando a limpar
aonde eu não tinha feito um bom trabalho…
- Não vi ninguém entrando aqui… E isso é um banheiro masculino. Vem,
vamos sentar antes que nos vejam, rápido!
Fechei a porta do banheiro e discretamente fomos para a mesa. Passamos despercebidos.
Ao sentar ela despiu minha xícara de café – agora frio – e eu me perguntava se o mundo alguma vez já fizera sentido. Não que eu realmente buscasse descobrir a resposta. Mas ao passo em que eu me indagava meio pasmo, estacionou seu olhar de animal invertebrado, de modo a me consumir dolorosamente as ideias, atravessando todas as minhas supostas muralhas. Na realidade, eu só queria congelar os segundos e continuar a observando e sendo invadido.
Perdi a noção do tempo e ela falava sem parar. Ocorre que não conseguia digerir nem assimilar tudo que lhe havia acontecido ao longo desses meses, por mais que insistisse em tentar. Falava que o tempo lhe fizera bem, que havia crescido muito, e eu pensava no quão bela ficava com aquele gorro estranho que vestia e me retraia distante em meu canto da mesa, tentando não focar no efeito do seu perfume. Tentando não olhá-la nos olhos. Tentando não lembrar que foi com ela que aprendi a esperar. Lutava em um coliseu contra a sanidade, porque lúcido eu já não me sentia mais.
- Das tantas ruas e esquinas e lugares e coisas a serem feitas em um sábado
chuvoso, por que aqui?
- Porque minha vida sempre desemboca na tua.
- Olha só, não tenho mais saúde pra te enxergar e te ver partir. Entendeu?
E ficamos por alguns minutos encurralados por tudo o que tínhamos a dizer, sabotando-nos sem piedade. As palavras ressoavam duras e calejadas de tanto chocarem-se no ar e, de maneira irreparável, eu depositava ali um pouco de minha tristeza imatura, como uma poesia qualquer sobre o amor escrita com o coração intacto.
-Senhor, está tudo bem?
- Como?
- O seu nariz… Tá sangrando… Está tudo bem?
Olhei ao meu redor, desencontrado. Não a vi sentada em minha frente. Esperanza não estava ali. Nunca estivera. E a garçonete me encarava abismada.
Em segundos me vi desapontado pela realidade e comecei a sentir o chão se afastando.
- Sim, sim… Está tudo bem – desabafei atrapalhado e procurei os trocados para pagar a conta a fim de entender o que havia se passado…
Afastei-me de mim e corri ao centro do parque da saudade. Não me sentia seguro. Na verdade, não tinha para onde ir e é fácil se perder dentro de si.
Por um minuto pensei em me desesperar, mas acabei apenas comprando um vinho barato e voltando para casa, derrotado. Bebi, bebi, e bebi novamente, eu beijava aquela garrafa verde como se estivesse beijando Esperanza. Ela afagava meus anseios e temores. Ela cuspia fogo para à lua…
E eu cantava rouco. Mas ela não ouvia.
Gabriel Andreolli
@angustifolia
Era a mistura de sol nascente com transpiração carnal
Beirando a loucura efêmera do gosto doce de sua pele
Deleito e suspiro
E renasço e ela me beija
Ela me engole e eu não hesito
Não resisto e entrego quente meu fluído,
Minha mais pura substância.
Mais uma vez renasço.
Deita em meu colo e entre afagos
Caçamos estrelas na constelação do nosso quarto.
Gabriel Andreolli
Não faz sentido meu coração bater com tanta força
a ponto de rasga-lo, se nem ao menos tu sente
a vibração de suas pulsações.
O tempo corre e enferruja meu entusiasmo.
O brilho do amanhã vem cada vez mais perdendo seu contraste.
Meus planos ficaram lavados e monótonos.
O teu cansaço me cansa.
Me pego conversando comigo, em monologos arrependidos
Ensaio minhas desculpas. Ensaio minhas lagrimas.
Meu nariz formiga,
Meus olhos ardem,
Minha boca amarga.
Mas antes, vou esperar alguns dias.
Mais alguns maços não vão me matar.
Quem sabe, talvez, a esperança vá.
Gustavo Paes
Essa praia era silenciosa, com apenas alguns pescadores na orla, não tinha ondas e era bem extensa, muito melhor do que aquele festival de bundas, peitos de óculos escuros que eu estava acostumado. Eu me sentia um tanto desconfortável quando ia à praia, corpos esbeltos esculpidos por Deus e milhares de horas de academia tinham um grande contraste com meu corpo cansado de procurar algum sentido nos problemas da cidade, da vida, do universo e de tudo mais. Mas essa tinha sido a primeira vez que me senti confortável em uma praia.
Decidi caminhar pela orla pra ver se as ondas conseguiriam talvez afanar algumas dores pra que eu pudesse enfim pensar em algo que não fosse minha vida na cidade. No fim da praia tinham algumas pedras bem grandes que iam até o alto mar. Sempre achei tão lindas essas pedras e sempre tive vontade de ver como as coisas são de lá, mas todas as vezes que fui à praia era com minha família e era a mesma história. Meu pai morria de medo que eu corresse qualquer tipo de risco. Ah! Meu pai! Quanto tempo demorei pra sacar meu pai? Saí de casa aos meus 27 anos de idade, e agora, quase um ano depois, era a primeira vez que eu estava sozinho numa praia, sem que ele olhasse por mim, ou dissesse sobre como me ajudou a arranjar tudo que tenho na vida, ou comentasse os planos de vida dele pro meu futuro. Eu estava livre pra fazer o que eu quisesse, mas sempre ouvia a voz dele no fundo da minha cabeça dizendo o que fazer. De repente me veio uma vontade louca de ir até a última pedra, de sentir o vento de lá, de correr perigo, quem sabe sofrer algum acidente, só pra ter alguma emoção mais forte, fazer algo que eu realmente quisesse. Arriscado. Eu estava sozinho, não tinha ninguém na praia e duvido que algum pescador se importaria se algo acontecesse comigo. Segui até o fim sem pensar muito durante o caminho. Iria até aquela pedra nem que fosse a última coisa que eu faria na vida.
O caminho entre as pedras era bem difícil, elas eram ásperas e pontudas e o calor do sol as deixaram como carvões em brasa, meus pés gritavam pedindo por piedade, meus ombros ardiam, pulando de pedra em pedra eu não hesitei em meu objetivo. Num pulo mal calculado acabei por rasgar meu calcanhar. Sangrava bastante. Ah! era isso que eu estava querendo não é mesmo? Só não queria que doesse tanto, mas até ali eu pedia por aquilo, minha consciência já havia me avisado diversas vezes pra voltar, meu “pai mental” berrava comigo incessantemente, mas eu queria mais. Eu queria aquela pedra.
Sentei num rochedo e molhei um pouco os pés na agua pra limpar a ferida, quando olhei para a praia, distante, no mínimo demoraria meia hora pra voltar e quando você está pisando em chapas de pedra flambadas, os ponteiros ficam aleijados e o tempo não passa. Continuei meu caminho, já conseguia ver a pedra que me encantara na praia. No caminho a dor não me permitia pensar em muita coisa, eu era puro instinto mastigado, só conseguia pensar na próxima pedra, o próximo pulo, vencendo a dor eu me sentia capaz de qualquer coisa. Foi quando vi um tubarão se aproximando que comecei a ficar realmente animado com tudo aquilo. Via somente sua sombra, era enorme, quase o tamanho de dois carros. Em cima das pedras eu estava seguro, no entanto, minha vontade era de terminar aquele trajeto para que eu pudesse finalmente cumprir minha missão. O tubarão foi me acompanhando, estava à poucas pedras da última. Finalmente conseguiria. Ninguém havia chegado ali. Eu era o cara.
A vista lá de cima foi uma das coisas mais bonitas que já vi. A praia em si parecia apenas um caminho que te levava até essa pedra pra que você vislumbrasse como o mundo vale alguma coisa. Eu me senti completo, muito satisfeito, senti que o que eu quisesse eu era capaz e que por mais que o caminho fosse ruim sempre haveria algo bom no final. Meu pai estava calado, ele nunca ficou tão quieto. O tubarão tirou a cabeça pra fora da água e começou a me encarar, disse: “Você é um canastrão. A pior ilusão é aquela que a gente quer acreditar. Você não é capaz de porra nenhuma, nunca conseguiu realizar nada com suas próprias mãos, por que acha que agora tu é capaz? Cai pra cá que eu vou despedaçar você e a sua vida medíocre.” O sangue do meu calcanhar escorria pela pedra, a última pedra, a pedra que eu escolhi chegar.
Eu sorri pra ele.
Pulei na água.
Enchi aquele filho-da-puta de porrada.
E nadei até a Africa.
Gustavo Paes - @paesdecember